A ideia deste livro-manifesto nasceu durante a produção de outra obra, Eu devia estar na escola (Editora Caixote, 2024), e teve a mesma força e motivação: a escuta de tantas coisas importantes que crianças e adolescentes têm a dizer. Para o primeiro livro, relatos e desenhos foram costurados a fim de narrar suas percepções sobre o que acontece na região da Maré, no Rio de Janeiro, e o que eles sentem nos dias de operações policiais — que são intervenções realizadas em determinado território, em caráter extraordinário, para investigar ou coibir atos ilícitos. Em diálogo com a Redes da Maré, instituição que atua diretamente no combate às distintas violações de direitos dos moradores das 15 favelas da região, e com a pesquisadora Adelaide Rezende, ouvimos, em 2023, 250 crianças e jovens para o Eu devia estar na escola. Mas logo no início desse trabalho de escuta e registro, ficou claro rapidamente quão importante seria trazer para o debate a complexidade do que é viver naquela região. Em nossos encontros, as conversas iam além dos tristes relatos das violências e das operações policiais, e cresceu o desejo de registrar os sonhos, as potências, os anseios e, principalmente, o que seria, para elas, inegociável para viver uma boa vida. Como parte do processo de feitura do primeiro livro, surgiu a oportunidade de acompanhar de perto, durante alguns meses, o trabalho da equipe da Redes da Maré responsável por produzir o 2o Congresso Falando Sobre Segurança Pública com Crianças e Jovens da Maré.